[ SAIBA COMO EVITAR NEGÓCIOS DA MODA ]

O que as paletas mexicanas, brigadeiros gourmet, frozen iogurte, sites de compras coletivas, food trucks e livros de colorir para adultos têm em comum? Em diferentes épocas, todos foram negócios lucrativos com auge estrondoso, mas declínio igualmente intenso.

“O ciclo de vida de um produto da moda é muito acelerado. Ele é rapidamente absorvido pela sociedade, mas rapidamente descartado”, diz a professora de estratégia empresarial da Business School São Paulo (BSP), Cecília Andreucci. “Os modismos são febres de consumo e não correspondem a uma mudança cultural de verdade.”

De acordo com a coordenadora do Centro de Desenvolvimento de Empreendedorismo da ESPM, Letícia Menegon, as manias atendem a surtos de comportamento e a necessidades temporárias da população.
Rafael Soares, de 33 anos, aprendeu esses conceitos depois de ver sua fábrica de sorvete de iogurte se expandir muito depressa em todo o País. A Yoguland nasceu em agosto de 2009, em Curitiba, depois de Soares acompanhar de perto o surgimento e o sucesso de uma iogurteria nos Estados Unidos.

“Via as lojas americanas lotadas. Depois de sete anos nos Estados Unidos, resolvi voltar para o Brasil e abrir um negócio para mim, com esse produto que eu considerava inovador”, conta. Em dois anos e meio, a Yoguland tinha 50 lojas e franquias em várias cidades brasileiras.

Nesse período, a concorrência também cresceu. “Dava para encontrar até quatro iogurterias diferentes dentro de um mesmo shopping. Entre um verão e outro, surgiram 13 novas lojas no Balneário Camboriú, em Santa Catarina, por exemplo.” Para Soares, a procura não acompanhou a oferta. “A curiosidade inicial foi a responsável por tantas vendas nos dois primeiros anos. Mas o frozen iogurte não faz parte da nossa cultura, como o sorvete. Tentamos implantar um produto mais saudável, mas não tão saboroso. O brasileiro quer sabor. Aí as iogurterias morreram”, conta.

Para não repetir a mesma trajetória, Soares prometeu para si próprio nunca mais investir em um “produto inovador”. Foi quando pensou em reinventar algo que já estivesse no dia a dia das pessoas: a pizza.

“Com tecnologia, poderia entregar um alimento que os brasileiros já conhecem – e amam – de forma inovadora. A Oven produz pizzas artesanais, individuais e personalizadas, em cerca de dois minutos”, afirma. A empresa está presente em shoppings de Curitiba, Maringá, São Paulo, Campinas e Belo Horizonte e planeja expansão para todo o Brasil. “Fugi do trauma da sazonalidade. Agora, temos algo perene, pensado para o longo prazo e que não sofre rejeição. Todo mundo ama pizza.”

Mexicanas. Outro amor de verão dos brasileiros foram as paletas mexicanas, picolés recheados de diferentes sabores, que chegaram em 2014 para fazer a alegria de quem queria refrescância com gostinho de novidade.

Sheyla Farias, de 34 anos, também buscava coisas novas para a vida profissional, depois de passar um tempo em casa cuidando dos filhos. Ela resolveu embarcar no empreendedorismo e abriu, em julho de 2014, a Muchachos Paleteria, uma das primeiras lojas do ramo na cidade, na zona norte de São Paulo. O sucesso foi tanto que Sheyla inaugurou outra loja, desta vez na Vila Nova Conceição, bairro nobre da capital, em janeiro do ano seguinte.

“Nossa segunda paleteria fechou em quatro meses. Não contávamos com a crise e nem com a falta de procura tão repentina”, diz Sheyla. No inverno de 2016, depois de reduzir 80% dos gastos, a empresária pensou em fechar totalmente a Muchachos, mas decidiu investir na produção de churros para retomar o crescimento.

“Foi o que nos segurou no meio do ano passado. Agora no verão, além das paletas, também vendemos açaí e, para continuar no ramo, vamos começar a vender sorvete de massa”, diz.
Segundo a professora Cecília, da BSP, a estratégia de Sheyla foi essencial para manter a empresa funcionando. “O empresário tem de ter sempre produtos que deem lucro no seu portfólio. Quando um entra em fase de declínio, já tem outro para substituir.”

Para Sheyla, outro segredo que manteve a paleteria de pé, mesmo após a queda nas vendas, foi a qualidade. “Nossa paleta é de confecção própria. Usamos os melhores ingredientes e as marcas mais conhecidas pelo público. O cliente visita o concorrente, mas volta para consumir o nosso produto.”
O estudo aprofundado, com um plano de negócios que demorou oito meses para ficar pronto, também foi importante, porque permitiu que a empresa pagasse todo o investimento nos primeiros meses de funcionamento e ainda guardasse dinheiro – algo fundamental para a continuidade do negócio.
A empresária reconhece o risco que correu. “Eu não faria isso de novo. Não investiria em um produto que pode virar modinha. Começar do zero é muito arriscado. Quem abriu paleteria depois da gente, já fechou.”
Para Cecília, abrir um negócio depois que a concorrência já está forte é um grande erro. “Até você estruturar seu negócio corretamente, a febre já passou. Se deixar para investir na moda depois que você já está vendo aquele produto na rua, você já começa atrasado.”

Segundo a professora da BSP, não tem problema investir em modismos, desde que o modelo de negócios esteja alinhado com essa estratégia. “Tem de saber aproveitar o melhor do empreendimento e perceber a hora de tirar o corpo fora, para não perder dinheiro.”

Se a ideia é investir na sazonalidade, a dica é trabalhar com produtos que demandam pouco investimento. “Para dar certo, a moda tem de ser uma opção, não um acontecimento inesperado.”
Por sua vez, o diretor de apoio a empreendedores da Endeavor, Luiz Guilherme Manzano, recomenda que o candidato a empreendedor analise suas experiências e competências. “Depois, descubra se você entende a dor e o problema do cliente. Assim, você tem muito mais chance de dar certo.”

Barba e cabelo. Foi dessa forma que Elton Lino dos Santos, de 34 anos, abriu a Barbearia Imperium, no Itaim Paulista, zona leste de São Paulo. Ele já era sócio da marca de produtos de beleza Fusion Cosméticos e também entendia bem a como funcionava os serviços de corte de cabelo e barba. Pensando em trabalhar com algo bem consolidado no Brasil, mas de forma diferenciada, ele inaugurou um tipo de espaço, que vem ganhando terreno no País: o salão destinado apenas ao público masculino. Além de cuidar de barba e cabelo, a barbearia também oferece tratamento facial e massagem e tem “atrações” como, cerveja artesanal, mesa de bilhar, fliperama .

“Não tínhamos nada com essa qualidade na região, apenas no centro da cidade. Apostamos, então em trazer essa experiência”, diz Santos.

Moda que dá certo

Especialistas explicam como lucrar com os produtos que viram febre, mas logo caem no esquecimento.
Seja o primeiro
Se a novidade já está nas ruas, ela não é tão novidade assim. Não invista em algo que as pessoas já estão comprando, porque até o seu negócio ficar pronto, a moda já passou.
Invista pouco dinheiro
Se ainda assim você quiser apostar, tenha consciência de que o produto tem data de validade e confira se o custo de entrada é baixo. Se não, a chance de perder dinheiro é grande.
Tenha portfólio
Outra solução para sobreviver aos riscos da temporada é ter vários produtos para oferecer aos clientes. Quando um estiver em declínio, sua empresa pode ganhar dinheiro vendendo outro.
Saiba quando parar
Perceber a hora de tirar o time de campo é importantíssimo para não se afundar em dívidas. Agilidade é essencial.

Tendência é reinventar serviços e criar experiências

“Tendência define um contexto dentro do qual vários produtos podem ser lançados. Alguns deles vão virar moda e outros não”, diz a professora da Business School São Paulo, Cecília Andreucci. Mas saber o que é tendência não é fácil. “É preciso muito estudo e acompanhamento de mercado. Alguns relatórios, como o Cool Hunting, o Euromonitor e o Mashable são bons indicativos”, diz.

Segundo a professora, é preciso entender de que forma as tendências afetam o consumo da população e também prever qual vai ser a reação da concorrência. Para o consultor do Sebrae-SP Davi Jeronimo, sempre haverá um risco. “Ter a essência de empreendedor é muito importante nesse momento, para conseguir fazer a tendência virar negócio. Aí você sai na frente de todo mundo e até a concorrência chegar, você já fidelizou a sua marca”, diz.

Para ele, a tendência de serviço é mais fácil de prever. “Demanda menos pesquisa e desenvolvimento.” Além disso, é importante que o empreendedor comece por onde conhece, exatamente como fez Elton Lino dos Santos, com a sua diferenciada Barbearia Imperium.

Para Jeronimo, a tendência atual é justamente a criação de novos conceitos e modelagens. “A figura do barbeiro é muito antiga, mas com um pouco de marketing, você aperfeiçoa um tipo de negócio e agrega valor.”

Segundo a coordenadora do Centro de Desenvolvimento de Empreendedorismo da ESPM, Letícia Menegon, as novas barbearias associam vários produtos e serviços no mesmo lugar. “No fundo, trabalham com a experiência, com a socialização e com a praticidade, que são tendências também”, afirma Letícia.

Fonte: Jornal o Estadão

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